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Editorial

Por António dos Santos Pereira

A arte e os lugares com memória, a  arquitetura urbana, a água e a montanha, a transumância, os ofícios da lã e o pecado, o trabalho e Marx

O património continua a fazer o lastro da ubimuseum, agora na perceção do espírito dos lugares com valor patrimonial na versão de um artista, o Francisco Paiva. A capacidade de encontrar a marca humana do passado com o sentido do futuro não pertence apenas ao historiador. Liberto dos pergaminhos ou dos papéis velhos, o artista contrasta o elemento patrimonial com o meio que observa intenso, e pode refazer o mundo em valores eternos. Ele desenvolve ainda a questão da medieção e nós, como responsáveis pela revista de um Museu, aportamos esta, conscientes das tarefas, que nos incumbem, na modelação cultural do fenómeno turístico, para além das óbvias dimensões de conservar, informar, comunicar, criar e persuadir a um nível superior, portanto, também artístico e de exposição permanente.  Ainda que apenas em alusão, notamosuma das figuras tutelares da Beira, que nos apraz convocar aqui, Aquilino Ribeiro, um apaixonado pela arte dos lugares e pelas experiências modernistas, vividas precocemente em Paris nos salões de outono nos primeiros anos da segunda década do século XX. Porém o artigo do Professor Francisco Paiva vale sobretudo pelo instrumental teórico que aporta, na sua análise dos imaginários e valores históricos inscritos no território, da arte, do património e da identidade, em um momento alto desta revista.

A arquitetura tornou-se um hábito da ubimuseum. Já estávamos habituados à preciosa colaboração da Ana Maria Martins, que agora nos traz, com a Mafalda Teixeira de Sampayo, um notável artigo sobre o património, na sua versão mais sublime, em simultâneo material e imaterial, “A Casa Grande de Romarigães”, na dupla expressão de Quinta de Nossa Senhora do Amparo e de peça romanesca de um dos mais geniais escritores  portugueses. O modernismo deixou-nos esta herança de cruzamento de várias artes. Do sucesso das Tarde de Quinta no Museu, chegam-nos as colaborações da Rita Ochoa, preciosa pela conceptualização do entendimento das cidades com linhas de água, e da Maria João Matos, dos espaços urbanos irmanados à montanha no paradigma alpino. Estas duas docentes universitárias brindam-nos com dois textos de qualidade superior de que resgatamos, em particular, a perceção de Lisboa face ao Tejo e a Covilhã, à Estrela.

Entre a Economia do Desenvolvimento e a História, com uma interessante súmula em que reporta a “natureza” da Beira Interior, a Professora Elisa Pinheiro acompanha a evolução demográfica da mesma, particularmente, entre 1874 e 2010,  e equaciona: “a par de alguns dos desafios económicos e sociais, o recente enquadramento administrativo da região face à(s) subjacente(s) identidade (s) que agrega ou segrega”.O artigo da medievalista Maria da Graça Vicente entra no cerne das matérias mais específicas da ubimuseum, o pastoreio, a transumância, os rebanhos de ovelhas, como fonte da matéria prima, que fizeram da Covilhã o maior centro português dos Lanifícios e justificam o nosso Museu. Esta académica faz-nos perceber a economia da Beira até à Idade Média mais funda. Ainda nas matérias específicas da História, nós construímos a biografia de um beirão dividido entre os ofícios da transformação da lã, como cardador e tintureiro, em estabelecimentos pisoeiros, em Manteigas e na Covilhã, e as atividades de curandeiro e os supostos atos de marginalidade,  que o levaram por três vezes ao Tribunal do Santo Ofício e às galés. A história dos lanifícios, a da medicina e a da sexualidade recebem aqui um precioso contributo.

Continuando uma linha aberta no ano passado, sobre os movimentos operários e as doutrinas económicas e sociais que os informam, aceitamos  a contribuição de Gisely Vieira Batista sobre a funcionalidade do Estado na reprodução da sociedade capitalista. Neste seu artigo, sustentada particularmente em Sérgio Lessa, traz-nos a conceção do  trabalho como “condição eterna da vida humana” e faz-nos perceber como Marx advoga o fim do Estado, em nome do fim da exploração daquele em um sociedade injusta, contraditória e desigual. A mesma matéria é retomada por Mariana Correia Silva Sabino com a particularidade de insistir sobre a dimensão humana e natural do trabalho que Marx relevou face à abstração que dele faz o capitalismo ao reduzi-lo a simples mercadoria. O trabalho percebido como interação entre o homem e a natureza transporta-nos para o centro do debate contemporâneo questionando os atuais fenómenos de sobrexploração dos recursos ao nível global e regional e que têm prejudicado os equilíbrios ecológicos e sociais. A nossa pertença á  Rede de Estudos do Trabalho, do Movimento Operário e dos Movimentos Sociais em Portugal fica assim justificada  mais uma vez com a atenção prestada a estas matérias.